Ninguém há de se contrariar quando se diz que a água é o bem mais precioso da Terra e, justamente por isso, muitos conflitos, intrigas, burburinhos e “arranca-rabo” já vieram acontecer por sua causa. Anteriormente aqui no blog, apresentei um pouco sobre como a água em Minas Gerais era considerada milagrosa e virtuosa ainda lá no século XIX e como as águas minerais serviam como instrumento para o desenvolvimento econômico do estado que até pouco tempo tinha a exploração aurífera como principal fonte de riqueza. Na literatura, essa temática da água aparece de um modo muito peculiar. É o que se pode observar em um dos contos de Paulo Rehfeld incluído em seu livro “Os rebellados”, de 1926. 

No conto “A desfórra”, o autor acompanha a “picuinha” existente entre Abel e Pai Adolpho. Figurada em um cenário imaginário, conta-se que Abel que até então era uma figura pacata e que passava despercebida, ficou incomodado com a chegada de Pai Adolpho à região. Sobre o recém-chegado, só se ouvia coisas boas, feitos incríveis, muitas propriedades, um verdadeiro fazendeiro de muitas posses e simpatia. Abel, cuja propriedade tinha um poço de águas que dava em fartura para a rega da plantação, logo percebeu que precisava vencer o rival, caso contrário cairia no esquecimento. Tudo seria encaminhado se alguém não tivesse outros planos para a vida de Abel: a morte. 

Mesmo depois que Abel recebera uma passagem só de ida para o além, Adolpho não se deu por vencido e continuou alimentando sua vontade em sair vitorioso naquele embate imaginário. Logo logo, teve a ideia de comprar a fonte de água da propriedade de Abel e, em razão das águas daquela época serem consideradas preciosas, pensou que pudesse vendê-las por um valor muito maior e, assim, faturar uma dinheirama, enquanto seu rival nada teria porque, afinal, mortinho estava. 

Quem não gostou nada disso foi a viúva do morto: Tia Amélia. A mulher recebeu várias importunações de Adolpho para vender a água, mas estava reticente porque não queria mexer na herança que lhe foi deixada. Depois de uma oferta irrecusável, assinou um contrato de 10 anos com Adolpho; a partir daquele dia, ele poderia encanar a água e usá-la desde que, em todo dia primeiro, ele lhe pagasse 50 réis, fazendo com que a quantia anual fosse de 600 réis, quase um terço a mais do que a quantia original. Assim que o homem teve acesso à água, mandou uma análise para o laboratório que não tardou em dizer: “Salôbra. Não potável. Salitrada e ligeiramente impregnada de arsênico. Pode contudo ser utilizada nas regas*”. 

Ora, estava perdida sua batalha contra o morto que acabou jamais sendo esquecido já que para zombar de Adolpho, o povo sempre pensava em Abel se acabando em deboche no céu. 

* Adaptado segundo o Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa de 2009.

 

REFERÊNCIA

REHFELD, Paulo. Os rebellados: (contos). Belo Horizonte: Emp. Editora, 1926. 157 p.

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