Literatura e Nacionalismo

Em 1929, foi publicado o livro “Histórias da Terra Mineira”, escrito por Carlos Goes, membro fundador da Cadeira 11 da Academia Mineira de Letras, em que o conteúdo é voltado para o ensino das crianças daquela época. Nesse sentido, Goes escreveu contos de temática histórica pensados para educar os infantes sobre o nacionalismo e o passado mineiro. 

Segundo Goes, “a educação cívica da infância é hoje o problema, que mais de perto entende com a concretização da nossa nacionalidade. […] O passado de um povo é fonte inesgotável de ensinamentos e estímulos” (Goes, 1926, p. 6). Em razão disso, o autor explica que contos e obras infantis como as histórias da carochinha não levam a criança a nenhum aprendizado concreto que ela possa, de fato, utilizar, visto que, para ele, toda leitura deveria refletir apontamentos cívicos. 

Tudo isso é importante para compreendermos como a Literatura e também a História podem ser utilizadas como ferramentas para cumprimento de uma narrativa política de seus autores e, claro, sob a regência de estruturas políticas de poder. Diante disso, a leitura de um dos contos é bastante intrigante. A história do “Cabeça de Ferro”, aparentemente, é como um conto ficcional qualquer mas que, a fundo, dialoga diretamente com os intuitos de Goes, expostos no prefácio. 

Em “Cabeça de Ferro”, Goes discorre sobre o intendente dos diamantes “José Antônio de Meirelles Freire”, que atuava na cidade de Diamantina, também conhecida como Tejuco em 1785. O intendente é descrito como um homem autoritário e violento, que prendia e açoitava a qualquer um que lhe apetecesse. Na região, as pessoas morriam de fome, presas ou no tronco; tudo a mando do “Cabeça de Ferro”.

Certa ocasião, chegou à cidade o Padre Joaquim Brandão, do Serro, que era conhecido por sua bela oratória. Logo o povo, em sofrimento, pediu ao vigário para interceder por eles junto ao Intendente. O padre foi até a autoridade, falou e pediu. O homem, intransigente, até ouviu mas por fim disse ao homem de Deus que aquilo era impossível. O padre, incomodado com a situação, não abaixou a cabeça e, no dia da festa, realizou a missa e deixou para a homilia, um momento inesperado. No sermão, com todos presente, inclusive o Cabeça de Ferro, o padre bradou: 

“Ministro de Satanás! Como aferrolhas míseros inocentes nesse horrível calabouço, cujo único crime foi terem cavado na terra os tesouros que a Providência aí ocultou para sustentarem em vida?!”

Além disso, o padre seguiu falando outras verdades com muita coragem e, para surpresa geral, o Intendente abaixou a cabeça e no dia seguinte libertou quem no tronco estava e sua mão de ferro ficou mais leve visto que as condições de vida melhoraram para o povo. Vejam só como em um conto o autor consegue apontar para ideais nacionalistas que tomavam forma naquela época e ainda é capaz de imbuir à história a mensagem de que a religião é capaz de guiar o país, o tirando das mãos de um déspota… 

Se você quiser estudar os outros contos escritos por Carlos Goes, esse livro já está disponível para acesso remoto. Entre em contato conosco para saber mais. Até a próxima! 

Observação: Texto adaptado segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 2009. 

 

REFERÊNCIAS

GÓIS, Carlos. Histórias da terra mineira por Carlos Goes. Bello Horizonte: Officinas Graphicas de Oliveira, Costa & Comp., 1929. 181 p.

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