As águas virtuosas de Minas Gerais

O século XIX conta com alguns aspectos peculiares acerca das práticas culturais da sociedade que instigam aqueles que, hoje, voltam os olhares para o passado, como por exemplo, a questão dos usos da água como tratamento terapêutico. Já é sabido que Belo Horizonte, por seu relevo montanhoso, era considerado pelos médicos como uma cidade excelente para o tratamento de pacientes tuberculosos devido seus ares puros e frescos. 

Contudo, no que diz respeito às águas, Minas Gerais proporcionou outros pontos da região, como Poços de Caldas, Lagoa Santa, Caxambu, entre outras. A água já vinha sendo lembrada e associada à saúde desde o século XVIII, especialmente porque na Europa haviam resgatado a ideia de fontes termais romanas. Com a sociedade brasileira, com menos médicos, as alternativas atravessavam terapias populares e homeopáticas. No estado do ouro, após o fim do ciclo do ouro no final do século XVIII, os governantes se debruçaram em novos meios de crescimento econômico através da agricultura, pecuária, exploração de minério de ferro e, é claro, das fontes de água mineral. 

A primeira “aparição” de uma água curativa em Minas Gerais foi tratada em “A prodigiosa” Lagoa Santa, na região metropolitana de Belo Horizonte, em 1749. Também no século XVIII, foram encontradas as águas de “Campos de Caldas” e, logo a cidade foi se desenvolvendo ao redor, se tornando posteriormente, a cidade de Poços de Caldas. Em 1870, obras de infraestrutura foram iniciadas e, brevemente, um conjunto específico de pessoas em busca das águas eram vistas por lá: médicos, enfermos, charlatões, enfermeiras, donos de hoteis, etc.… 

Foi em busca dessas águas que o Capitão Julio Cezar Pinto Coelho, grande nome de importância para Belo Horizonte e para o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, reuniu seus trajetos no livro “Roteiro de viagem com direção às águas virtuosas de Caxambu, Alambary e Caldas na província de Minas Gerais”, de 1883. Sua viagem se deu porque seu pai, enfermo à época, recebeu recomendação médica para se tratar nas águas minerais do interior do estado e, como ele percebeu que o caminho e os guias poderiam ser um problema, decidiu escrever um livro para ajudar outras pessoas que também buscavam a cura pelas águas. Segundo ele, “na construção dos Poços de Caldas, ultimamente feita pelos empresários daquelas águas, verificou-se que existia mais uma nascente, na qual foi também construído um poço, dando-se-lhe o nome de Chiquinha. No ano de 1882, os aquáticos (assim se chama no lugar as pessoas que vão fazer uso das águas) descobriram uma nascente que […] é completamente fria e para se fazer uso internamente torna-se muito mais agradável, e, segundo a opinião do ilustrado médico Dr. Pedro Sanches de Lemos, é muito própria para esse uso* (Coelho, 1883, p. 44).”

O autor discorre bastante sobre os usos das águas, além de fazer uma descrição criteriosa dos benefícios das terapias e das indicações para as doenças, trazendo um trabalho muito rico tanto para a época quanto para hoje entendermos um pouco mais sobre os costumes científicos de um período vivido a quase cento e cinquenta anos atrás. 

* A transcrição foi adaptada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 2009. 

 

REFERÊNCIAS

COELHO, Júlio César Pinto. Roteiro de viagem com direcção ás Aguas Virtuosas de Caxambú, Alambary e Caldas na Provincia de Minas Geraes. Juiz de Fora (MG): Typographia e Litographia do Pharol, 1883. 102 p.

MARQUES, Rita de Cássia; COSTA, Rafaela Siqueira. As Águas de Minas: criando cidades e curando doenças no século XIX. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho 2011. Disponível em:https://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1308156102_ARQUIVO_ANPUH2011AsaguasdeMinas.pdf Acesso em 25 nov 2024. 

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