A cabeça de Tiradentes

A célebre Inconfidência Mineira tomou forma no século XVIII e teve como figura mais lembrada, celebrada e debatida, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. É também de conhecimento geral que, no deflagrar do movimento, Tiradentes foi condenado à forca e teve seus membros arrancados e postos em exposição pelo caminho que ligava o Rio de Janeiro à Villa Rica, atual Ouro Preto, pela Estrada Real. 

No livro “Historia e Tradições da Província de Minas-Geraes” de Bernardo Guimarães, publicado aproximadamente em meados do século XIX, o autor conta de forma muito curiosa a “tradição” que ronda a história da cabeça de Tiradentes, que ficou exposta em Ouro Preto.

Reza a lenda que a cabeça de Tiradentes ficou pregada em riste sendo vigiada dia e noite por uma sentinela. O autor questiona porque diabo aquela cabeça ficava ali já há mais de três anos:

 

Temiam acaso, que aquele crânio oco e ressequido onde há tanto tempo se extinguira a vida e o pensamento, de novo se reanimasse, e reunindo-se ao tronco esquartejado e esparso, desse outra vez o sinal de revolta ao povo oprimido?” p. 40

 

É fato que a ação da Coroa para tratar dessa maneira o corpo do alferes foi tomada para que as pessoas o vissem como um exemplo, mas quem hoje pensa no acontecido pode realmente ficar “matutando” sobre como foi a recepção de pessoas comuns diante de um corpo partido espalhado por quilômetros, apodrecendo aos olhos nus. 

No conto de Bernardo Guimarães, acontece o impensável: certa noite muito chuvosa, escura e solitária, o sentinela acaba caindo no sono e não vê que um homem encapuzado se aproxima. Quando o sino da Igreja toca à meia-noite, o sentinela então percebe que o crânio havia sido roubado! Algum tempo se passa e, na rua das Cabeças, uma casa mal cuidada chama atenção de vizinhos curiosos que acabam testemunhando o velho que a habitava cultuando uma cabeça durante suas rezas. O povo fica estarrecido e se pergunta se o velho era algum assassino ou coisa do tipo, mas ele acaba morrendo com fama de feiticeiro. 

Para a surpresa de todos, descobre-se ao final que o velho havia confidenciado a uma única pessoa que ele era o gatuno ladrão da cabeça de Tiradentes. Agora, a pergunta que rondava a cidade era: o que fazer com a relíquia: enterrar ou deixá-la “calçada debaixo dos entulhos das paredes esboroadas do velho?”

REFERÊNCIAS

GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da provincia de Minas-Geraes. Rio de Janeiro: H. Garnier, [18–?]. 263 p.

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